Duas mortes. Uma investigação controversa.
Na manhã de 23 de junho de 1996, Paulo César Siqueira Cavalcante Farias, conhecido como PC Farias, e sua namorada Suzana Marcolino foram encontrados mortos dentro da casa de praia de PC, na região de Guaxuma, em Maceió, Alagoas.
PC Farias tinha 50 anos e havia se tornado conhecido nacionalmente como tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor de Mello em 1989 e como figura central do chamado "esquema PC", que esteve no centro das denúncias que levaram ao processo de impeachment de Collor em 1992.
Inicialmente, a investigação oficial concluiu que Suzana Marcolino havia atirado em PC e posteriormente cometido suicídio. Essa interpretação foi sustentada pelos primeiros exames médico-legais.
A conclusão, entretanto, foi contestada por outros peritos e pelo promotor Luiz Vasconcelos. Novos exames levantaram dúvidas sobre a trajetória dos disparos, a posição dos corpos e outros elementos da cena.
Em 1999, a hipótese de que Suzana havia assassinado PC e cometido suicídio foi abandonada pela polícia e pela Promotoria de Alagoas. O Ministério Público passou a trabalhar com a possibilidade de duplo homicídio e posteriormente denunciou quatro ex-seguranças de PC.
O processo chegou ao julgamento em 2013. Os quatro acusados foram considerados inocentes pelo júri. Nenhuma condenação estabeleceu judicialmente quem matou PC Farias e Suzana Marcolino.
A principal controvérsia do caso envolve a dinâmica das mortes: homicídio seguido de suicídio ou um duplo homicídio cometido por terceiros.
Antes do assassinato. Uma figura no centro da política brasileira.
Paulo César Farias nasceu em Passo de Camaragibe, Alagoas, em 20 de setembro de 1945. Empresário, tornou-se uma das figuras mais conhecidas do cenário político brasileiro no início da década de 1990.
Farias atuou como tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor de Mello nas eleições de 1989. Depois da posse de Collor, seu nome passou a aparecer em denúncias de corrupção relacionadas ao governo.
Em 1992, Pedro Collor de Mello, irmão do presidente, acusou PC Farias de atuar como operador de um esquema de tráfico de influência. O Congresso Nacional instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as atividades relacionadas ao empresário.
As denúncias contribuíram para a crise política que culminou no processo de impeachment de Fernando Collor de Mello.
Depois de deixar o Brasil, PC Farias foi localizado no exterior, preso e posteriormente extraditado. No Brasil, foi condenado por sonegação fiscal e falsidade ideológica.
Paulo César Farias
Empresário alagoano conhecido como PC Farias. Foi tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor em 1989 e figura central das denúncias relacionadas ao chamado esquema PC.
Suzana Marcolino
Namorada de PC Farias. Foi encontrada morta ao lado dele na casa de praia em Guaxuma, na manhã de 23 de junho de 1996.
A trajetória política e empresarial de PC Farias tornou-se parte importante do contexto público que cercou a investigação de sua morte.
Guaxuma. Os últimos momentos conhecidos.
Na madrugada de 23 de junho de 1996, PC Farias e Suzana Marcolino estavam na casa de praia de PC, localizada em Guaxuma, litoral norte de Maceió.
Funcionários e seguranças permaneciam nas proximidades da residência. Segundo relatos registrados na investigação, os disparos não foram percebidos pelos seguranças que estavam do lado de fora.
Pela manhã, PC e Suzana foram encontrados mortos dentro do quarto. A porta e a janela do cômodo estavam fechadas pelo lado de dentro e precisaram ser arrombadas para permitir o acesso.
Cada um havia sido atingido por um disparo de arma de fogo calibre .38.
A primeira interpretação policial foi de que Suzana havia atirado em PC e, em seguida, cometido suicídio. Essa versão seria contestada nos anos seguintes.
PC e Suzana na residência
Os dois permanecem na casa de praia de PC, em Guaxuma.
Corpos encontrados
PC Farias e Suzana Marcolino são encontrados mortos dentro do quarto.
Homicídio seguido de suicídio
A investigação inicial aponta Suzana como autora do disparo contra PC e, depois, como responsável pelo próprio suicídio.
O crime ocorreu na casa de praia de PC Farias, em Maceió.
Os dois mortos foram atingidos por disparos de um revólver calibre .38.
PC e Suzana foram encontrados no mesmo quarto.
O quarto estava fechado quando os corpos foram encontrados.
Um quarto fechado. Dois corpos e uma única arma.
A dinâmica encontrada na casa tornou-se um dos pontos centrais da investigação. PC Farias e Suzana Marcolino estavam mortos dentro do mesmo quarto.
A arma utilizada nos disparos era um revólver calibre .38. Segundo a versão inicial da investigação, Suzana teria utilizado a arma contra PC e posteriormente disparado contra si mesma.
Também foram encontrados vestígios de pólvora na mão de Suzana, elemento utilizado inicialmente para sustentar a hipótese de que ela havia efetuado os disparos.
Outros peritos, entretanto, questionaram a capacidade desses elementos de estabelecer sozinhos a sequência dos acontecimentos.
A posição dos corpos, as trajetórias dos projéteis e principalmente a trajetória do disparo que atingiu Suzana passaram a ser discutidas em novos exames periciais.
A arma utilizada nos dois disparos foi identificada como um revólver calibre .38.
Vestígios de pólvora foram apontados na mão de Suzana nos exames iniciais.
A trajetória do tiro que matou Suzana tornou-se um dos principais pontos de divergência.
Investigações posteriores levantaram a hipótese de que outra pessoa poderia ter estado na cena.
A presença de uma única arma não resolveu a questão fundamental: se Suzana matou PC e depois se matou, ou se ambos foram mortos por outra pessoa.
Dois lados da investigação. Laudos que não concordavam.
A primeira conclusão médico-legal foi conduzida pelo legista Fortunato Badan Palhares. Seu trabalho sustentou a interpretação de que Suzana havia matado PC e posteriormente cometido suicídio.
A partir de 1997, contralaudos produzidos por outros especialistas passaram a contestar elementos da reconstrução inicial.
Um dos principais pontos de divergência envolvia a altura de Suzana Marcolino e a trajetória do projétil que a atingiu.
O primeiro laudo utilizava uma altura de aproximadamente 1,67 metro para Suzana. Um contralaudo produzido por outros peritos estimava que ela teria cerca de 1,57 metro.
A diferença alterava a reconstrução geométrica do disparo e foi utilizada para questionar se Suzana poderia ter efetuado o disparo da forma descrita inicialmente.
O conflito entre os laudos tornou-se um dos principais obstáculos para uma conclusão judicial sobre a autoria.
Fortunato Badan Palhares
Responsável pelos exames médico-legais iniciais. Sua conclusão sustentou a versão de homicídio seguido de suicídio.
George Sanguinetti
Médico-legista alagoano que contestou a interpretação inicial e defendeu a hipótese de que PC Farias e Suzana Marcolino haviam sido assassinados.
Ricardo Molina
Perito criminal que também questionou elementos da perícia inicial e considerou incompatível com as evidências a versão de homicídio seguido de suicídio.
A diferença entre os valores apresentados pelos peritos modificava a análise da trajetória do disparo que matou Suzana.
Homicídio e suicídio. Ou um duplo assassinato.
A primeira hipótese investigada oficialmente foi a de um crime passional. Segundo essa versão, Suzana teria matado PC Farias durante uma discussão e posteriormente cometido suicídio.
Elementos como os vestígios de pólvora na mão de Suzana, a existência de apenas uma arma e informações sobre problemas no relacionamento foram utilizados para sustentar essa interpretação.
A hipótese passou a ser contestada após novos exames periciais e pela atuação do promotor Luiz Vasconcelos.
A segunda hipótese considerava que PC e Suzana haviam sido vítimas de um duplo homicídio. Nessa interpretação, uma terceira pessoa teria participado do crime e deixado a cena posteriormente.
O promotor Vasconcelos afirmou ter identificado elementos que indicariam a presença de uma terceira pessoa na residência e passou a investigar os antigos seguranças de PC.
Outra possibilidade levantada durante os anos de investigação foi a de que a morte de PC pudesse estar relacionada às informações que ele possuía sobre atividades políticas e financeiras. Essa possibilidade foi discutida publicamente, mas não resultou na identificação judicial de um mandante.
Suzana teria matado PC e cometido suicídio em seguida.
Uma terceira pessoa teria matado PC e Suzana.
A Promotoria posteriormente investigou a possibilidade de alguém ter participado do crime.
A possibilidade de crime de mando foi discutida, mas nenhum mandante foi condenado.
A controvérsia não estava apenas na identidade do autor, mas na própria reconstrução de como as duas mortes aconteceram.
Novos suspeitos. Uma investigação que mudou de direção.
Depois que a versão inicial passou a ser contestada, a investigação ganhou novos rumos. O promotor Luiz Vasconcelos não aceitou a conclusão de que Suzana havia cometido o assassinato e suicídio.
Vasconcelos passou a investigar a possibilidade de uma terceira pessoa ter estado na casa durante o crime.
Quatro ex-seguranças de PC Farias — Adeildo dos Santos, Reinaldo Correia de Lima Filho, Josemar dos Santos e José Geraldo da Silva — foram denunciados posteriormente pela Promotoria.
A acusação sustentava que os antigos seguranças teriam participação no assassinato. Eles negaram envolvimento no crime.
O processo percorreu diferentes instâncias judiciais durante anos. Em junho de 2011, o Supremo Tribunal Federal negou o último recurso que impedia o julgamento dos acusados pelo Tribunal do Júri.
O julgamento ocorreu em 2013, quando os quatro réus foram submetidos ao júri popular.
Quatro ex-seguranças de PC foram denunciados pela Promotoria.
O STF permitiu que o caso avançasse para julgamento pelo Tribunal do Júri.
Os quatro acusados foram julgados em júri popular.
Os quatro réus foram considerados inocentes pelo júri.
A acusação contra os ex-seguranças chegou ao Tribunal do Júri, mas o julgamento terminou sem condenações.
Dezessete anos depois. O tribunal não encontrou culpados.
O processo envolvendo os quatro ex-seguranças de PC Farias se estendeu por muitos anos. A defesa recorreu sucessivamente contra a decisão que determinava que os acusados fossem submetidos ao Tribunal do Júri.
Em junho de 2011, o Supremo Tribunal Federal negou o último recurso e manteve a realização do julgamento popular.
O julgamento teve início em maio de 2013, quase dezessete anos depois das mortes ocorridas em Guaxuma.
Os quatro acusados foram julgados pela acusação de participação nos assassinatos de PC Farias e Suzana Marcolino.
Ao final do julgamento, os jurados consideraram os quatro réus inocentes.
O resultado encerrou a ação penal contra aqueles acusados, mas não estabeleceu judicialmente quem realizou os disparos que mataram PC e Suzana.
Duas mortes
PC Farias e Suzana Marcolino são encontrados mortos em Guaxuma.
Mudança na investigação
A versão de homicídio seguido de suicídio deixa de ser aceita pela polícia e pela Promotoria.
Último recurso
O STF permite que os quatro acusados sejam submetidos ao Tribunal do Júri.
Júri popular
Os quatro acusados são considerados inocentes.
O julgamento não produziu uma condenação pelos assassinatos de PC Farias e Suzana Marcolino.
Vinte e nove anos depois. A pergunta permanece.
O assassinato de PC Farias e Suzana Marcolino continua marcado por versões conflitantes sobre a dinâmica das mortes e pela ausência de uma condenação que estabeleça judicialmente quem efetuou os disparos.
A versão inicialmente apresentada pelas autoridades apontava Suzana Marcolino como responsável pela morte de PC e, posteriormente, por seu próprio suicídio.
Essa interpretação foi contestada por outros peritos e posteriormente abandonada pela polícia e pela Promotoria, que passaram a investigar a hipótese de duplo homicídio.
Quatro ex-seguranças de PC Farias chegaram a ser denunciados e levados a julgamento. Em 2013, os quatro foram considerados inocentes pelo Tribunal do Júri.
O julgamento, portanto, não estabeleceu quem matou PC Farias e Suzana Marcolino. Também não houve condenação judicial de um eventual mandante.
O caso permanece associado a uma das investigações criminais mais controversas do Brasil dos anos 1990, especialmente pela disputa entre os laudos periciais e pelas diferentes interpretações sobre a cena do crime.
A pergunta central permanece sem uma resposta judicial definitiva: quem disparou a arma naquela madrugada de 23 de junho de 1996?